Passando um pedaço das férias em São Borja, cidade fronteiriça com Santo Tomé, na Argentina, tive contato com um livro muito interessante, apresentado a mim pelo meu avô. É um livro antigo, escrito por Osorio Tuyuty de Oliveira Freitas, Tenente-Coronel do Exército. Datado de 1943, em sua segunda edição, suas folhas muito amarelas e algumas comidas pelo tempo o fazem parecer mais velho. O livro entitula-se A Invasão de São Borja, e narra no seu cerne o evento referido, acontecido em 1865, quando paraguaios assim fizeram.
Mas não foi o assunto principal do livro que me chamou a atenção, mas sim o fato de descobrir de onde vieram os genitores da minha família, os Vieira de Oliveira (vieram de Sorocaba – SP), saber detalhes sobre os indígenas do Rio Grande do Sul, chamado à época de “Província do Rio Grande de São Pedro do Sul”, e ter lido uma descrição riquíssima sobre a vida do peão de estância, ou gaúcho, como são chamados pelos argentinos.
Mantendo a grafia da época, transcreverei, ipsis literis, aqui, os primeiros capítulos, pois tratam extamente sobre o que escrevi acima. Espero que estas informações sejam tão prazerosas de serem absorvidas por você quanto foram para mim.
CAPÍTULO I: Os primeiros habitantes do Rio Grande do Sul
Antes de iniciarmos o histórico da fundação do município de São Borja, convém, a título de ilustração e para bom entendimento de nosso trabalho, dizer alguma cousa sôbre os primitivos habitante do Rio Grande do Sul.
Não se poderá, entretanto, falar unicamente sôbre estes. A divisão territorial, em uma época em que as terras paraguaias se estendiam até Cananéia (Estado de São Paulo), a localizaçã de algumas nações indígenas nas proximidades do Rio Grande de hoje e causas histórico-geográficas as mais diversas induzem-nos à convicção de que povos de naturais vizinhos do nosso Estado compartilharam, de alguma sorte, em sua história. Assim, falaramos, ainda que resumidamente, sôbre as principais tribus das reduções jesuíticas, à luz do que deixaram escrito os estudiosos: Gay, Teschauer, Bonpland e Isabelle.
Releva acrescentar, ainda, que depois de 1500, durante quasi três séculos, nossa história desenrolou-se, nas bacias dos rios da Prata, Paraguai, Paraná e Uruguai. Surgiu, por assim dizer, ao arrepio das águas dêsses rios, vias naturais de penetração, aos vastos campos e matas desconhecidos. Assim, até 1610 tivemos as lutas dos “descobrimentos”, e, daí por diante, até quase 1800, o grande drama das “Missões Jesuíticas”.
Enumeremos, pois, as nações indígenas que habitavam o Rio Grande: Iª – Guaranís (guerreiros). Estavam situados entre o Paraguai e o Paraná e entre o Paraná e o Uruguai, ocupando também a margem esquerda dêste. Não formavam uma nação íntegra, apesar do curioso fenômeno de falaram a mesma língua, designada sob o nome geral de “Guaranís”. Estavam divididos em inúmeras tribus (famílias) que, ou tomavam o nome dos chefes temporários (caciques, tuxavas) ou dos lugares em que habitavam.
2º – Tapes (originários dos Tapuias, segundo Teschauer. Grande nação. Dominava, de um modo geral, o centro do Rio Grande do Sul, sendo senhora das bacias do Jacuí e do Camaquã, tributário da Lagoa dos Patos. Segundo Gay, ocupava a vasta região delimitada pelo mar, a serra dos Tapes e o Uruguai.
3º – Minusanos. Viviam inicialmente, nas planícies do alto Paraná e parece que se estendiam bastante para o Sul, pelas margens dêste rio. Molestados pelos conquistadores e pelos jesuítas, passaram o Uruguai e vieram estabelecer-se às margens das lagoas dos Patos e Mirim. Logo que se iniciou a colonização portuguesa, mudaram de paragens e foram estacionar na região dos rios Vacacaí, Cacequí e Batoví. Teschauer localiza-os na região sul do Ibicuí. É fato que estabeleceram aliança mui íntima com os Charruas e, enquanto aqueles se conservavam próximos ao Ibicuí, estes se mantinham nas cercanias do Rio Negro.
4º – Charruas. Dominavam a região compreendida entre o rio da Prata, Lagoa Mirim e Uruguai (Gay). Perseguidos pelos espanhois e paulistas, fixaram-se sôbre a margem setentrional do Rio Negro e alguns sertões do Rio Grande.
Os tupís (tios) eram possuidores da vasta costa marítima do Brasil, quando ocorreu o descobrimento. Essa grande nação, segundo alguns autores, dividia-se em 16 tribus, das quais podemos destacar: tamóios, tupinambás, tupiniquins, tupinaís, caités, tabajaras, pitagoares, aimorés, purís e coroados. Ao que consta, uma destas tribus desmembrou-se da grande nação e veiu fixar-se na região de São Xavier e Santo Ângelo, de uma e outra margem do Uruguai. Errante e esquiva pelas matas, não deixou sinais sequer de um início de catequese.
Havia diversas tribus, muito relacioandas entre si, com o nome geral de Guaianás. Habitavam a região sul do Paraná (rio Iguassú) e Santa Catarina, até as proximidades do Uruguai. Para nós, tornaram-se notáveis pela sua docilidade e sociabilidade, com os índios das reduções jesuíticas, com os quais muito comerciaram. Outras tribus, conforme assevera Teschauer, habitavam também o Rio Grande. Essas, porém, menos numerosas e guerreadas pelas mais fortes, foram completamente assimiladas por estas. Parece que êsse fenômeno se passou com os “arachanes”, que tornaram a língua e os costumes dos guaranís.
As tribus também citadas por Teschauer são: Guenoas, na região compreendida entre as nascentes do Rio Negro e as do Vacacaí; Carijós, sôbre o mar e Caaguás, na região norte do Caí. As principais nações vizinhas eram as seguintes: Bugres, situados na região norte do Paraguai; pampas ou querandís, na costa meridional do Rio da Prata; guanás, moradores do Chaco paraguaio; Mbaias também do Chaco; Paiaguás, dominadores do Paraguai, ao qual deram seu nome e Guaicurús, que moravam no Chaco, quasi na frente de Assunção.
É incontestável que as nações indígenas localizadas em nosso Estados cooperaram na formação de vários povos jesuíticos, que hoje são cidades rio-grandenses. Quanto à permanência dos índios nesses povos, muitos fatos a prejudicaram. É certo, porém, que os índios tiveram grande influência na formação etnológica do povo rio-grandense.
Não precisamos demonstrar essa tese. É um fato ao alcance de qualquer um: basta que percorramos nosso território e nos fixemos na infinidade de caboclos, descendentes dos gauranís, charruas, minuanos e tapes que, a todo momento, se nos deparam, alguns conservando traços, ainda bem característicos da raça de origem. Ao lado de graves falhas, oriundas do seu estado, possuíam, os nossos índios, qualidades morais, intelectuais e físicas do mais alto valor.
Falaremos, no capítulo seguinte, sucintamente, sôbre estas, destacando a celebridade que alcançaram algumas Nações, em lutas memoráveis, ora na defesa do território ou das tribus, ora em auxílio das coroas espanhola e portuguesa. Após, narraremos a história da fundação de São Borja.
Capítulo II: Os índios do Rio Grande
Vamos, neste capítulo e nos 3 seguintes, fazer um rápido estudo das 4 principais raças indígenas que habitaram o nosso Estado.
GUARANÍS
Constituíam uma enorme Nação, espalhada no Brasil, de Norte a Sul. Franscisco Adolfo Varnhagen faz observações mui interessantes sôbre os índios do Brasil. Acha ele que todos estes eram “verdadeiras emanações de uma só raça ou grande nação.” Depois de provar essa afirmação, com argumentos assás convincentes, diz: “que esta unidade de raça e de língua explica a rapidez do progresso das conquistas feitas pelos colonos do Brasil, de onde a língua se lhes apresentou outra, não conseguiram tão facilmente penetrar”. Como se disse, anteriormente, dominavam a vasta região missioneira.
Transcreveremos, aqui, textualmente, os seus caractéres físicos, de acôrdo com o Padre Teschauer:
“Eram todos de estatura média, reforçados e bem feitos. O tronco em comparação com os membros era grande, e os pés e mãos pequenos. Corpo bem nutrido e robusto, rosto largo, maçãs salientes, nariz achatado, olhos pequenos, pretos, encovados, erguidos no ângulo exterior, algo cerrados e feições algum tanto melancólicas. De cor eram acobreados, mais ou menos escuros, segundo as regiões que habitavam. Quanto aos caractéres psíquicos, podemos afirmar que possuíam qualidades invejáveis, razão porque que foram disputados por todos os caudilhos. Tornou-se célebre a cavalaria guaraní do General Abreu. Suportavam, galhardamente, fadiga, doença e até a morte”.
Convém, neste capítulo, transcrever o que diz o Cônego Gay, na obra citada, a respeito da cooperação dos índios nos dramas sangrentos que se feriram no sul, nas recuadas épocas da delimitação de fronteiras e das questões intestinas.
“Durante 50 anos que teem corrido, desde 1810 até hoje (1863), os índios missioneiros teem entrado em todas as guerras que teem desolado o Prata, e seu número tem diminuido consideravelmente, pois êles teen formado A FÔRCA PRINCIPAL DOS EXÉRCITOS (o grifo é nosso). Os diferentes caudilhos que se dispunham o poder se disputavam também estes grupos de provoação que lhes podiam subministrar soldados. Do sossêgo mais profundo, os gauranís missioneiros passavam, repentinamente, à vida agitada dos acampamentos e das batalhas e sua mansidão se transformou em ferocidade segundo o capricho do chefe que os mandava e a cujas ordens obedeciam cegamente”.
Os gauranís tornaram-se notáveis pela sua fidelidade. Adiante veremos interessantes passagens a êsse respeito, entre êles o célebre caudilho D. José Artigas, pai adotivo do índio sãoborjense André Taquarí (Andrésito Artigas), não menos renomado.
Alguns autores dizem que possuiam um caráter sombrio e taciturno e que não eram comunicativos. Sua aptidão para as artes era notável, especialmente para a música, na qual se observaram verdadeiros prodígios. Destacaram-se pela facilidade com que se mesclavam com os europeus.
Quanto às más qualidades, que alguém lhes empresta, como: inconstância, imprevidência, indolência e fleugma, elas não encontram apoio em autores imparciais.
Outrossim, é preciso que nunca se aparte o selvagem do meio em que viveu. A psicologia dêle é muito delicada. Segundo me parece, só deve ser feita, quando o homem já chamado à civilização e, pois, com suas energias devidamente orientadas. Então, nós, que nos presumimos civlizados, poderemos apreciar seu caráter por um prisma justo, isto é, racional e uniforme.
Não podemos encerrar êste assunto sem ressaltar o valor da língua dos guaranís. Os doutos não cansam de lhe exaltar a extrema perfeição, a riquesa, a elegância, a delicadeza, a ductilidade e outros atributos, “fenômeno até hoje inexplicado no campo da arqueologia americana.” Este fato tem consolidado a opinião dos sábios de que os índios americanos descendem de “um povo civilizado que há muito deixou de existir.”
Tenho para mim, que não está mui longe o dia em que se constate a alta linhagem dos índios do Brasil. Então, riremos dos INDIÓFOBOS de fancaria, quando souberem que nossos aborígenes proveem de povos muito mais perfeitos que os gregos e romanos…
CAPÍTULO III: Tapes, Charruas e Minuanos
TAPES
O nosso Rio Grande de São Pedro, hoje Rio Grande, recebeu, no decurso de seu desenvolvimento, diversos nomes, em cuja série figura “Tierra de los Tapes”. Segundo o Cônego Gay, Tape quer dizer cidade. O Padre Teschauer traduz êsse nome como “arraial grande”. Montoya, referindo-se aos Tapes, diz:
“Com efeito, era devéras um povo muito grande e pela terra inteira corre a fama do povo Tape.”
Os Tapes viviam em populosas aldeias e foram de tal forma numerosos que seu nome era tão comum nas reduções jesuíticas quanto o dos guaranís. A serra e o município de Tapes são atestados eternos da existência dessa grande Nação. A versão mais corrente é de que foram Tapuias guaranizados. Assimiliram dêstes os usos e costumes, conservando, entretanto, qualidades características.
Eram ótimos guerreiros e tinha maior arranjo em suas habilidades do que os guaranís, aos quais também sobrepujavam em altura. Diz, textualmente, o Cônego Gay:
“Os Tapes não existem mais em estado selvagem e se restam alguns estão civilizados e misturados com os habitantes da Província do Rio Grande e da República Oriental.”
CHARRÚAS
Como dissemos, localizaram-se ao Sul do nosso Estado. Eram de estatura elevada, vigorosos, mui ágeis e de côr moreno-escura. Distinguiampse pela beleza dos olhos e dos cabelos, que eram negros e abundantes. Seu valor for indômito. Seu orgulho e sua altivez jamais permitiram a escravidão. Por isso, durante muitos anos, fizeram guerra aos guaranís, cuja submissão e vida pacata não toleravam. Essas qualidades lhes deram a celebridade que seu número reduzido não podia grangear.
Foram ótimos cavaleiros, manejando as bolas, laços e lanças com terrível perícia. Sua vida era de nômades na própria terra. Pernoitavam onde a noite os encontrasse. Eram, como os guaranís, pouco expansivos e, além disso, pouco dados às artes. Acolheram, sempre, com prazer, os fugitivos das reduções. Sua vida era muito semelhante ao gaúcho atual, “índio vago” que sempre anda cruzando campo e não conhece lei nem necessidade.
Aliaram-se, estreitamente, aos Minuanos, com o quais foram, muitas vezes, confundidos. Certa memória histórica, sôbre a Província de Missões, dirigida a Félix de Azara, em 1785, diz o seguinte sôbre os Charruas:
“Parece que o bom natural dêstes índios lhes franquearia a entrada em nossa religião. Esta não lhes é repugnante, mas lhes repugna a sujeição e o regime de reduções. Ninguém os manda. Êles fazem o que querem.”
MINUANOS
Foram escassas e controvertidas as informações que pude colher sôbre os Minuanos. Alguns autores julgam-nos um desmembramento dos Charrúas, outros descendentes dos Tapes. O Padre Tescheuer diz que eram pequenos, enquanto o Cônego Gay os apresenta mais corpulentos que os Tapes. Eram resolutos, generosos e hábeis homens do cavalo, que adestravam admiravelmente bem. Si bem que nunca tivessem sido dominados, incorporaram-se, inteiramente, à civilização.
Os Minuanos, como os Charrúas, foram soldados célebres. Disso, diversas vezes, tivemos confirmações, ao acompanharmos os movimentos revolucionários do General Don José Artigas e seu filho adotivo André Artigas. Nicolau Dreys, falando sobre os Minuanos, diz:
“Os Minuanos, em cujo poder estava o terreno de Oeste até as margens do Uruguai, acabaram nas fileiras de Artigas, em favor do qual tinham pegado em armas os diminutos restos daquelas duas nações (refere-se aos Charrúas e Minuanos) passaram o Uruguai e estabeleceram no país de Entre-Rios; todavia, alguns indivíduos talvez ficassem nos domínios de seus antepassados incorporados com a população local.”
Parece-me que não deveria ter dito TALVEZ e sim, CERTAMENTE, pois seria tão inadmissível uma emigração total, quanto o é a inexistência dos cruzamentos de nativos com portugueses e espanhóis…
Lembremos, para rematar, que o minuano, êsse vento de Oeste, tão saudável, que limpa o céu deixando-o tão azul e torna os dias tão lindos, é uma recordação perpétua dêsses destemidos cavaleiros rio-grandenses, redivivos nas hibernias do pago.
CAPÍTULO IV: O índio e a etnologia Gaúcha
Não é possível desprezar a influência do índio na formação étnica do rio-grandense do sul. Autores antigos, há, como tive oportunidade de ver no livro do Cônego João Pedro Gay, que, ainda nas vizinhanças do ano de 1800, estimavam em dezenas de milhares a população indigena do Rio Grande do Sul. Houve núcleos de povoação em todos os pontos notáveis do terrítório.
Segundo documentos autênticos, tivemos, na alta Santa Cruz, uma população de 10.000 guaranís; em Cruz Alta, 6.000 pagãos indígenas e, mais ao norte, pela bacia do Jacuí, ainda outros milhares. Na região de Alegrete, um pouco a nordeste, é sabido que viviam cêrca de 6.000 selvagens; na de São Vicente, vila cuja origem é genuinamente indígena, fundade pelo Padre José Cataldino, houve, de início, 3.000 almas aborígenes.
São por demais conhecidos os 7 Povos das Missões Orientais do Uruguai, criados pelos jesuítas: São Nicolau, São Miguel, São Luiz, fundados em 1687, São Borja, em 1690, São Lourenço, em 1691, São João Batista, em 1698 e Santô Ângelo, 1706. Só em São Miguel prosperavam 16.000 índios guaranís. Calculo, fundado em documentos, estima em cêrca de 200.000 almas reunidas pelos padres jesuítas, NAS MISSÕES. Foram estes expulsos em 1767. Já em 1801, quando as Missões foram incorporadas ao Rio Grande, Dreys diz estarem reduzidas a 20.000 habitantes. Em 1814, calcula os seus habitantes no número de 8.000.
Precisamos ressaltar, entretanto, que êsse decréscimo não significa desaperecimento das populações. Estas, desgostosas ou abandonadas, retornavam às matas, à vida primitiva. É claro que não desapareciam. Verdade é que as lutas constantes que sacudiram o território muito devastaram a população indígena – MASSA DOS EXÉRCITOS.
Reportando-nos à época, porém, concluiremos que essas guerras não poderiam apresentar o caráter de dizimação total. Muito menos mal fizeram, por outro lado, as perseguições dos brancos, pois se convenceram, desde o início de que, pela fôrça, jamais dominariam o índio - maior padrão de glórias do nosso nativo que desafia, com êle, aqueles que duvidam da fôrça de seu caráter.
O erudito e paciente Padre Teschauer, estudando as causas que entravaram a colonização do Rio Grande, cita, como a principal, a questão de limites entre as Coroas portuguesa e espanhola, que tornou o nosso Estado um
“canto disputado, duvidoso e, como tal, descurado.”
Diz, entretanto, que
“não deve figurar em último lugar a existência de tribus ferozes, como particularmente a dos Charrúas, de que foi vítima do célebre navegador Solis e muitos outros.”
O nosso vocabulário está impregnado de têrmos indígenas, que abundam na terminologia familiar, em nossa geografia, em nossa zoologia e emergem, a cada passo, nas expressões relativas aos nossos usos e costumes. É uma verdade científica indiscutível que a língua de um povo representa a sua mais lídima expressão psicológica.
Poderíamos citar inúmeros conceitos relativos a essa asserção. Basta-nos, porém, mencionar Döhne:
“A língua de uma Nação é o único distintivo infalível do seu caráter nacional”
e Batista Caetano:
“Na palavra, no verbo manifesta-se o homem, dá-se a conhecer o povo com as suas idéias, usos e costumes e distingue-se a raça.”
Nicolau Dreys, no seu livro “Notícia Descritiva da Província do Rio Grande de São Pedro do Sul”, publicado em 1863, diz:
“A língua usual nas missões é a língua gauraní: sonora, eufônica e extremamente pitoresca: principia já a ser a popular desde o Rio Pardo e nessa última vila fala-se indiferentemente, e quase com a mesma facilidade, a língua portuguesa e a língua indígena; pois a população das Missões consta, pela mor parte, dos restos da nação Guaraní: nação branda, dócil e sofredora, sem todavia, ser estrangeira ao préstimo militar: deixaram fama no Rio Grande os valentes lanceiros a cavalo, outrora denominados do General Abreu, inteiramente formados de naturais das Missões.”
Fazendo um admirável estudo sôbre o gaúcho, afirma, textualmente, o mesmo autor:
“formados (os gaúchos), originariamente, do contacto da ração branca com os indígenas, êles se recrutam incessantemente nos mesmo produtos, e ainda de todos os indivíduos que nessas imediações nascem, sem ordem e sem destino, com o gôsto tão geral de uma vida fácil e de perfeita liberdade.”
No capítulo seguinte remataremos êste interessante assunto, chamando a atenção dos leitores para o “Peão de estância”.
CAPÍTULO V: O Peão de Estância
Não me posso furtar aqui, de transcrever, literalmente, o que diz o Cônego Gay, sôbre “o peão de estância”:
“O peão, a que chamam GAÚCHO na Confederação Argentina, se levanta antes do sol, dirigi-se aos currais, faz sair os rebanhos e quando êles se teem espalhados pelos campos, regressa então para casa, toma mate, fuma e ordinariamente não faz mais nada até que de tarde vai recolher os rebanhos quando é uso, porque muitos não os fazem recolher. Seus outros serviços são reunir o gado em certos dias dias em lugares designados chamados RODEIOS, e aí se curam as bicheiras, se apartam os touros e potros para capar, faz-se a marcação das crias etc. Se não tem algum dêsses serviços a fazer, o peão ou gaúcho, para empregar seu tempo procura uma venda ou PULPERIA como chamam em castelhano, e alí busca na cachaça e no jôgo uma recreação no meio de seus iguais.
A venda ou pulperia é em geral um triste rancho situado a duas, a quatro, a seis leguas da estância, onde se encontra vinho detestável, canha, queijo, pão, fumo etc. e é o ponto de reunião ou “rendez-vous” dos peões de dez léguas de circunferência. Alí, entre o tinir dos copos, o entrondo das gargalhadas, o murmúrio das violas, o rumrum das chilenas (esporas) e às vezes o estridor das facas e dos punhais, se forma as reputações colossais, e os homens de grande pretígio, que mais tarde aparecem à frente dos peões e gaúchos para impor a lei à sociedade culta das cidades.
Artigas, Quiroja, Rosas, etc., etc., todos os caudilhos se teem encostado mais de uma vez sôbre o sujo e gordurento mostrador de uma pulperia antes de se sentar na cadeira do poder, e aí teem merecido os aplausos da “peonada” antes de mandar esquadrões e exércitos.
Nestas reuniões se fala de carreiras, se atam novas, se fala de marcação, de animais extraviados, de assassinatos e disputas que teem havido na semana, de eleições, etc., e de tudo que pode ocupar uma vida vagabunda, desocupada. Sempre há entre êles um “tocador” ou cantos que em sua linguagem tosca, mas a miúdo poética e veemente improvisa, acompanhando-se com a guitarra cantos mais ou menos extensos, cujo assunto é tomado de suas conversações ou dos trabalhos e das desgraças de um caudilho famoso, dos índios ou de suas próprias aventuras.
Assim, o PEÃO, o GAÚCHO é o tipo mais preeminente da sociabilidade nos países da bacia do Rio da Prata, onde a indústria pastoril é a principal, na república Oriental, na Confereção Argentina, na província do Rio Grande do Sul e nas Missões jesuíticas. Desde o berço êle tem o seu cunho particular. Apenas pode suster-se a cavalo, isto é, desde a idade de cinco a seis anos, o cavalo é uma parte integrante da sua pessoa; chegado á puberdade êle o encilha ao romper do sol e não desencilha senão para comer, jogar e dormir, levando o mesmo cavalo, nos arreios, a cama do cavaleiro. Cria-se domando potros, degolando novilhos, correndo carreiras, vagando sozinho na imensidade dos campos sem mais armas que seu “laço”, suas “bolas”, seu “punhal” e raras vezes uma “pistola”, cruzando os rios a nado, prendido com uma mão às crinas de seu corcel e com a outra nadando e empurrando o cavalo contra a correnteza; lutando com os animais ferozes como trigres, expostos aos ataques dos malfeitores capazes de os assassinar pelas grandes “esporas” que costumam levar ou pelo poncho com que se cobre, acostumado a suportar horas inteiras os ardentes raios do sol no verão, e as intempéries do inverno, a dormir em todas as estações debaixo de um “umbú” ou em uma “tapera”, a galopar três dias e três noites sem descançar, e alimentar-se unicamente de carne meio assada, sem sal, sem pão; o peão reune em seu caráter muito DA ENERGIA INDEPENDENTE DA RAÇA GUARANÍ (o grifo é nosso), nçao tendo maiores conhecimentos da divindade e de deus deveres tanto religiosos como sociais, e muito da natureza de ferro e do extraordinário valor dos primeiros conquistadores.
Como suas necessidades são mui limitadas e os laços de família pouco o prendem, poucos dias de trabalho lhe bastam para as satisfazer por muito tempo, e como está seguro de encontrar outra estância onde acomodar-se, quando liver idéia de deixar seu patrão, pela escassez dos braços e dos homens inteligentes na lida dos campos, se acostuma desde tenros anos a não depender de ninguém e a considerar seus superiores de igual a igual. Não lhe dará o título de “amo” por todo o ouro do mundo, “patrão” secamente e quasi por favor. E ai do temerário que confiado em suas qualidades de “amo” ou “patrão” quisesse desconhecer o caráter do seu “peão”, insultuando-o mesmo com motivo!…
O peão ou gaúcho, se bem que muitas vezes generoso e com as melhores disposições quandpo não é viciado seu caráter, é supersticioso, desconfiado, mui reservado e cheio de antipatias contra o homem da cidade, quem tem outras maneiras, outos hábitos, outroas ideias,que fala de distinto modo e até que veste didersamente. Êle o despreza altamente e não toma o trabalho de ocultar o desdém. Êle tem o instinto de locomoção que o obriga a não permanecer muito tempo na mesma paragem e deixar pelo menor pretexto, e às vezes, sem nenhum, a estãncia onde reside. Êle não fica detido em nenhuma parte pela propriedade, pois que apenas em geral o peão um “rancho” baixo, pequeno, coberto de palha com as paredes de paus verticais, fincados no chão e tapados com barro. Aí, no isolamento no meio do campo, a mulher e os filhos vegetam como planta, e os homens vagando de venda em venda para proporcionar-se uma sociedade fictícia de algumas horas, porque o lar doméstico os obriga a buscar em outra parte a distração e o emprêgo da sua atividade. Parece que sua alma indômita necessita perder-se na imensidão dos campos, nos desertos onde encontram seu deleite inefável e misterioso. Assim sem ser nômade, o peão ou gaúcho passa a mor parte da sua vida errante de entância em estância, de pago em pago.
Não conhecem mais distrações que as que resultam das qualidades pessoais. SEMELHANTE AOS ÍNDIOS (o grifo é nosso) e aos antigos germanos em seu estado semi-bárbaros, que elegiam seus chefes entre os mais valentes, só admiram e respeitam o que cai sob seus sentidos, v.g., a fôrça corporal, a destreza a cavalo, o valor , a liberdade ou audácia, o desprêzo da morte… Para figurar entre êles é preciso ter estar qualidades em grau eminente. Foi por estes princípios que subiram ao poder muitos caudilhos da Confederação Argentina, com prova a história. Não acrescentámos, com diz D. Alexandre Magarinos Cervantes, que a estes predicados deve-se unir o de ser amigo de mulheres e do vinho e jogador consumado por isso está entendido.
Acostumados a ser donos de suas ações, não gostam de obedecer a ordens de outros. O sentimento da sua igualdade e independência, é neles tão natural que nada o pode apagar e debrá-los à obediência.
Nas guerras, nas revoluções, nas eleições mesmo, se lhes falam que estão ameaçados de uma tirania que nunca conheceram, se lhes mostram inimigos, antagonistas que os querem reduzir à servidão, à escravidão, à condição de negros, se lhes falam em nome de uma liberdade que não compreendem, então instintiva e involuntariamente se enrolam sob as bandeiras liberais que teem heróicamente sustentado, derramendo o seu sangue na metade do continente americano.”
Vêde, pois, leitores amigos, nesta estirada e preciosa transcrição, que o Cônego Gay confunde, nos mesmo termos, o peão de estância e o gaúcho. De fato, o gaúcho é o peão de estância e êste forma a maioria da nossa população campesina.
O peão de estância é o “piá” (coração, em tupí-guraní) que nos enche o mate; é o campeiro que nos “pára” os redeios; é o ginete que nos “quebra o queixo” da bagualada; é o nosso vaqueano nos “exquisitos”, dos banhadais “campo-fora” e dos “atalhos”; é o nosso companheiro nas intermináveis viajens a cavalo; é o guerreiro que nos atende e se “reúne” para as revoluções; é o gaúcho anônimo que tem formado todas as colunas que cruzaram os campos e serras, nas revoluções cisplatinas, na epopéia farroupilha, na Guerra do Paraguai, na revolução de 93, em 1923, em 1930 e em 1932!
É, finalmente, o gáucho dos campos e das serras e matas. É o “provisório” legalista ou o revolucionário da opisição, sempre pronto ao chamamento das armas, sentinela vigilante dos movimentos políticos, reflexo permanente das aspirações ou tendências de governantes ou governados. É o “homem” dos nossos movimentos cívicos.
É de ontem a revolução de 32. Que exemplos maiores de valor podemos desejar de que os do 3º C. A. serrano, o “pé no chão” e do 14 C. A., missioneiro?
E quem é êsse gaúcho?
- É o “caboclo”, é o índio, seja puro, seja descendente de gauranís, tapes, cahrrúas, minuanos ou algumas das outras “nações” do Rio Grande, assimiladas por essas 4, maiores ou mais fortes.
Abandonemos, pois, como teoria iconoclasta e dissolvente, aquela que nos pretende alhear do elemento indígena de que proviemos. Somos, em grande porcentagem, os legítimos nacionais, e, muito principalmente, os gáuchos, uma excelente cruza do europeu com o índio.
